Na Prática
ACT: a “terapia de terceira onda” que cresce na clínica brasileira e propõe parar de lutar contra os sintomas
Em vez de tentar eliminar a ansiedade ou a tristeza, a Terapia de Aceitação e Compromisso ensina o paciente a conviver com elas enquanto avança em direção ao que importa. Entenda a abordagem que já soma centenas de estudos.
Entre as abordagens psicoterápicas que mais ganham espaço na prática clínica brasileira está a Terapia de Aceitação e Compromisso — conhecida pela sigla em inglês ACT (de Acceptance and Commitment Therapy). Parte das chamadas “terapias de terceira onda” da abordagem cognitivo-comportamental, a ACT propõe uma mudança de lógica que, à primeira vista, parece paradoxal: em vez de combater os sintomas, o objetivo é aprender a se relacionar de outra forma com eles.
A premissa central é a seguinte. Boa parte do sofrimento humano não vem apenas da dor em si, mas da luta constante para evitá-la ou controlá-la — um processo que os terapeutas chamam de “esquiva experiencial”. Tentar a todo custo não sentir ansiedade, por exemplo, pode acabar organizando a vida inteira em torno desse medo, ampliando o problema. A ACT inverte esse jogo: o objetivo não é eliminar a ansiedade, a tristeza ou a dor, mas aumentar a disposição de experimentá-las enquanto a pessoa caminha em direção a uma vida significativa, guiada por seus valores.
Os pilares da abordagem
A ACT se apoia em um conjunto de processos que buscam desenvolver o que se chama de flexibilidade psicológica — a capacidade de se adaptar ao momento presente e agir de acordo com o que é importante, mesmo diante de pensamentos e emoções difíceis. Entre seus componentes centrais estão:
- Aceitação: abrir espaço para emoções desconfortáveis em vez de lutar contra elas.
- Desfusão cognitiva: aprender a observar os pensamentos como eventos mentais, não como verdades absolutas que ditam o comportamento.
- Contato com o momento presente: atenção plena ao aqui e agora.
- Valores: identificar o que realmente importa para a pessoa.
- Ação comprometida: dar passos concretos rumo a esses valores, mesmo na presença do desconforto.
Teoricamente, a abordagem se fundamenta na Teoria das Molduras Relacionais (RFT), que estuda como a linguagem e o pensamento humano podem, eles mesmos, gerar sofrimento — por meio de processos como a fusão com pensamentos negativos e a esquiva.
O respaldo científico
A ACT não é modismo: é uma abordagem baseada em evidências. A literatura registra mais de 300 ensaios clínicos randomizados avaliando sua eficácia, com resultados que vão de moderados a expressivos no tratamento de condições como ansiedade generalizada, depressão recorrente e dor crônica. Sua eficácia é considerada comparável à da TCC tradicional.
Aqui cabe um ponto de equilíbrio importante, que a boa prática clínica sempre reforça: dizer que a ACT é eficaz não significa que ela seja “melhor” que outras abordagens. Estudos que comparam a ACT com a TCC clássica costumam encontrar eficácia semelhante. A escolha entre uma e outra depende muito do perfil do paciente, da natureza da demanda e da forma como cada pessoa lida com seus pensamentos e emoções. A ACT tende a se destacar especialmente em quadros nos quais a tentativa de controlar ou evitar os sintomas é justamente o que perpetua o problema.
O que isso significa para a prática
Para o psicólogo clínico e o estudante, o crescimento da ACT reflete uma tendência mais ampla na psicoterapia contemporânea: o movimento das chamadas terapias contextuais e baseadas em processos, que olham menos para “consertar” conteúdos mentais específicos e mais para mudar a relação da pessoa com sua experiência interna. No Brasil, a abordagem tem ganhado espaço em pesquisas, formações e na prática de consultório.
Como toda ferramenta clínica, a ACT exige formação adequada e supervisão — não é algo que se aplique a partir de uma leitura superficial. Mas seu avanço sinaliza um campo da psicologia vivo, plural e em constante diálogo com a ciência, oferecendo ao profissional mais um caminho fundamentado para ajudar quem sofre.
Fontes: literatura sobre Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e terapias contextuais; materiais técnicos de institutos de formação clínica e revisões sobre eficácia comparada de ACT e TCC. A escolha de abordagem deve sempre considerar o caso clínico e contar com profissional qualificado.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo, voltado a profissionais e estudantes, e não substitui formação clínica nem acompanhamento profissional. Em situações de crise, o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas, gratuitamente.