Saúde Mental
Afastamentos por transtornos mentais batem novo recorde no Brasil: 546 mil em um ano
Dados do Ministério da Previdência mostram que ansiedade e depressão lideram as licenças. Número cresceu 15,66% em relação a 2024 e expõe a saúde mental como questão de trabalho — não só de clínica.
O Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais da sua história recente. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais em 2025 — um crescimento de 15,66% em relação a 2024, quando foram 472.328 benefícios. O salto consolida uma curva de alta que já vinha assustando especialistas e que transforma o adoecimento psíquico em uma das principais causas de afastamento do trabalho no país.
Para se ter ideia da escalada: em 2023, foram 283.471 concessões. Em 2024, o número saltou para 472.328 (alta de 68% num único ano). E em 2025 chegou a 546 mil. Em três anos, o volume praticamente dobrou.
Ansiedade e depressão na liderança:
As duas condições que mais geraram benefícios foram, novamente, os transtornos ansiosos e os episódios depressivos — o mesmo padrão observado em 2024. Não é uma flutuação isolada: a repetição ano a ano indica um fenômeno estrutural, ligado às condições de trabalho e às marcas deixadas pela pandemia, segundo a leitura de psiquiatras e psicólogos que acompanham o tema.
Os dados também revelam um recorte de gênero expressivo. Do total de benefícios concedidos em 2025, 63,46% foram para mulheres — 346.613 contra 199.641 dos homens. Especialistas relacionam esse desequilíbrio a fatores sociais: sobrecarga da dupla jornada, responsabilidade pelo cuidado familiar, menor remuneração e exposição à violência. Por outro lado, mulheres também tendem a buscar ajuda profissional com mais frequência, o que facilita o diagnóstico.
Geograficamente, os estados mais populosos concentram os maiores números absolutos. São Paulo lidera, com 149.375 benefícios, seguido por Minas Gerais (83.321) e Rio Grande do Sul (46.738).
Por que isso interessa diretamente à psicologia?
O número é mais do que estatística previdenciária — é um mapa de demanda. Cada benefício representa um trabalhador que chegou ao ponto de não conseguir mais exercer suas funções, o estágio mais grave e visível de um sofrimento que, na maioria dos casos, começou muito antes. Para o psicólogo clínico, sinaliza o volume de pessoas que chegam (ou deveriam chegar) ao consultório. Para o psicólogo organizacional, abre uma frente de atuação que deixou de ser opcional.
É aqui que entra a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), atualizada pelo Ministério do Trabalho para incluir os riscos psicossociais. A mudança passa a obrigar empresas a identificar, registrar e tratar fatores como assédio, sobrecarga e pressão por metas dentro de seus programas de saúde e segurança do trabalho — sob risco de multa. Na prática, isso cria demanda real por profissionais de psicologia capacitados em saúde mental ocupacional, um campo em franca expansão.
O custo da inação também aparece nos números. O benefício é concedido pelo INSS após perícia médica, quando o afastamento supera 15 dias. Em média, os trabalhadores ficaram cerca de três meses afastados — um impacto humano e econômico que o país já não consegue mais tratar como exceção.
Fonte: Ministério da Previdência Social (gov.br), dados divulgados em janeiro de 2026. Série histórica do INSS / Classificação Internacional de Doenças (CID-10, Capítulo V).