Saúde Mental
Querer estudar mais e não conseguir: frustração educacional está ligada a mais sintomas de depressão em jovens trabalhadores
Jovens que entraram no mercado de trabalho sem alcançar o nível de estudo que desejavam apresentam mais sintomas de depressão — e o peso é maior quando o que barrou o plano foi a falta de condições, não uma escolha pessoal. É o que indica um estudo publicado em 2 de julho na revista científica Depression and Anxiety.
Os pesquisadores, ligados a instituições da Coreia do Sul, analisaram jovens trabalhadores e mediram sintomas depressivos pela escala CES-D. Eles separaram as “aspirações educacionais não realizadas” em dois tipos: as pessoais (a pessoa poderia ter estudado, mas seguiu outro caminho) e as circunstanciais (fatores externos, como dinheiro ou acesso, impediram).
Os dois grupos tiveram mais sintomas depressivos do que quem realizou o que planejava. Mas o efeito das barreiras circunstanciais foi bem mais forte — o coeficiente foi quase três vezes maior do que o das frustrações pessoais. Em outras palavras, não é só não ter estudado: é sentir que a porta foi fechada por algo fora do próprio controle.
O trabalho também olhou para a satisfação com o emprego atual. Quem se dizia insatisfeito no trabalho tinha escores de depressão significativamente mais altos; quem estava satisfeito, mais baixos. A satisfação profissional aparece, assim, como um possível amortecedor — ou agravante — dessa relação.
Por que isso importa no Brasil
O retrato conversa diretamente com a realidade brasileira. Aqui, evasão escolar, entrada precoce no mercado por necessidade financeira e o custo do ensino superior fazem com que muitos jovens simplesmente não cheguem aonde queriam. Para o psicólogo, o achado reforça um ponto clínico: a dor de uma trajetória interrompida não é “frescura” nem falta de esforço — pode ser um fator de sofrimento psíquico com marcadores mensuráveis. Investigar o histórico educacional e as expectativas frustradas do paciente pode abrir uma porta importante na escuta.
Os limites do estudo
Vale a cautela metodológica. Trata-se de um estudo transversal: ele mostra uma associação entre frustração educacional e depressão, mas não prova que uma cause a outra — é possível, por exemplo, que quadros depressivos também dificultem a trajetória de estudos. Além disso, a amostra é coreana, e fatores culturais e econômicos podem alterar a intensidade dessa relação no Brasil. Os dados de escolaridade e de humor foram autorrelatados. Ainda assim, os autores rodaram várias análises de robustez, e o resultado se manteve estável.
A mensagem central é sóbria: acesso à educação não é apenas uma questão de renda futura. É, também, uma questão de saúde mental.
Se você está passando por sofrimento emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Fonte: Kim W., Lee S. Y., Ju Y. J. “Association Between Unmet Educational Aspirations and Depressive Symptoms in Working Young Adults.” Depression and Anxiety, 2 jul. 2026. DOI: 10.1155/da/6025004.
