Connect with us

Cérebro & Mente

O que o seu gosto musical revela sobre a personalidade, segundo a ciência

Publicado

on

Sua playlist diz algo sobre você, mas talvez não da forma que você imagina. Não é o gênero (rock, sertanejo, funk, MPB) que melhor revela quem você é, e sim as características da música que você procura. Isso é o que sugere uma das pesquisas mais robustas sobre o tema.

Além do gênero

Em 2016, uma equipe liderada por David Greenberg e Peter Rentfrow, da Universidade de Cambridge, publicou o estudo “The Song Is You”. A sacada foi abandonar os rótulos de gênero, que eram cheios de mal-entendidos culturais, e olhar para os atributos que as pessoas realmente percebem na música. A partir de 102 trechos musicais de 26 gêneros e de 38 atributos avaliados, os pesquisadores reduziram tudo a três dimensões:

  • Excitação (arousal): o nível de energia — de intenso a suave.
  • Valência: o tom emocional — de triste a alegre.
  • Profundidade (depth): a sofisticação intelectual e emocional — do “som pra pensar” ao “som pra dançar”.

Depois, 9.454 voluntários avaliaram suas preferências nessas três dimensões e responderam a um teste dos cinco grandes traços de personalidade (Big Five). O resultado central: a personalidade previu o gosto musical acima e além de idade, escolaridade e sexo. Ou seja, quem você é pesa mais do que sua faixa etária no tipo de som que agrada.

O caso dos extrovertidos

Um achado se destaca: pessoas mais extrovertidas tendiam a preferir música mais estimulante e energética; as mais introvertidas, sons mais calmos e relaxantes. Há uma explicação clássica para isso, proposta por Hans Eysenck. Segundo sua teoria, extrovertidos teriam um nível de ativação cortical mais baixo, e por isso buscam estímulo no ambiente, inclusive na música. Introvertidos, com ativação de base mais alta, tendem a evitar o excesso de estimulação. A playlist, nessa leitura, é uma forma de regular o próprio estado interno.

O cérebro também trata sons de formas diferentes. Um estudo de Suzuki e colegas (2008) observou que acordes maiores e menores ativam circuitos distintos: os menores mobilizam áreas ligadas a emoção e recompensa, enquanto os maiores acionam regiões associadas ao processamento ordenado da informação.

Um cuidado importante

Antes de sair “lendo” a personalidade dos amigos pela playlist: essas são relações estatísticas e modestas, não regras. Personalidade se correlaciona com preferência musical — não a determina. Cultura, memória afetiva, contexto e a simples familiaridade também moldam o que gostamos. Nenhum teste sério de personalidade se faz olhando o Spotify de alguém.

Por que isso interessa

Para além da curiosidade, há aplicação prática. Se a música ajuda a regular energia e emoção, compreender esse mecanismo pode refinar o uso terapêutico do som — em intervenções voltadas a humor, ansiedade e regulação emocional. Os próprios autores apontam usos na saúde, além das óbvias implicações para algoritmos de recomendação. No fim, aquela música que você coloca sem pensar talvez esteja fazendo um trabalho silencioso: ajustar você ao mundo.

Fontes: Greenberg, D. M., Kosinski, M., Stillwell, D. J., Monteiro, B. L., Levitin, D. J. & Rentfrow, P. J. (2016). “The Song Is You: Preferences for Musical Attribute Dimensions Reflect Personality”, Social Psychological and Personality Science, 7(6), 597–605. Suzuki, M. et al. (2008), Cognitive, Affective & Behavioral Neuroscience, 8(2), 126–131.