Cérebro & Mente
Ultraprocessados encolhem sua atenção — mesmo que o resto da dieta seja saudável
Estudo com mais de 2 mil adultos mostra que basta um aumento pequeno no consumo de comida ultraprocessada para piorar foco e velocidade de raciocínio. E a régua que mede isso foi criada por um brasileiro.
Você pode comer bem na maior parte do tempo e, ainda assim, estar prejudicando silenciosamente a sua capacidade de prestar atenção. É o que sugere um estudo internacional publicado na revista científica Alzheimer’s & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring, que encontrou uma ligação direta entre o consumo de alimentos ultraprocessados (UPFs) e uma queda mensurável na capacidade do cérebro de focar.
A pesquisa acompanhou 2.192 adultos, de 40 a 70 anos, sem diagnóstico de demência. O achado mais impressionante é a sensibilidade do efeito: para cada aumento de 10% na proporção de calorias diárias vindas de ultraprocessados, os participantes apresentaram queda nas pontuações de atenção e velocidade de processamento em testes padronizados. Em termos práticos, algo tão pequeno quanto acrescentar um pacote de salgadinho ao dia já foi suficiente para mover o ponteiro — e, crucialmente, esse efeito apareceu independentemente da qualidade do resto da dieta. Ou seja, comer saudável no geral não anula o impacto dos ultraprocessados.
O que conta como ultraprocessado
O estudo classificou os alimentos pelo sistema NOVA — e aqui entra o orgulho nacional. A classificação NOVA foi desenvolvida pelo pesquisador brasileiro Carlos Monteiro, da Universidade de São Paulo (USP), e hoje é referência mundial nesse tipo de investigação. Pelo critério, ultraprocessados são produtos que passam por intensa transformação industrial e costumam conter aditivos como corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes: refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, embutidos, macarrão instantâneo e a maioria das comidas prontas para consumo.
Esses produtos já eram associados a mais de 30 desfechos negativos de saúde, incluindo fatores de risco para demência, como doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e obesidade. A novidade é que o cérebro parece ser uma vítima precoce — afetado na função cognitiva antes mesmo de muitos sinais clássicos aparecerem. No mesmo estudo, cada aumento de 10% no consumo de UPFs também elevou o escore de risco de demência.
Por que isso interessa à psicologia
A relação entre alimentação e mente é um território cada vez mais relevante para a saúde mental. Atenção e velocidade de processamento são funções cognitivas básicas, que sustentam desde o aprendizado até a regulação emocional. Quando elas se deterioram, há impacto direto no desempenho, no humor e na qualidade de vida — terreno que dialoga com a clínica psicológica, a neuropsicologia e a psicologia da saúde.
Vale a ressalva metodológica, que o próprio campo faz questão de sublinhar: estudos como esse são, em boa parte, observacionais. Eles mostram uma associação forte e consistente, mas não provam, isoladamente, uma relação de causa e efeito direta. Ainda assim, uma revisão sistemática recente reforçou o quadro: a maioria dos estudos sobre o tema aponta ligação entre maior consumo de ultraprocessados e pior desempenho cognitivo, incluindo memória e funções executivas.
A mensagem para profissionais e para o público é equilibrada e prática: o que colocamos no prato não afeta só o corpo, mas também a mente — e reduzir ultraprocessados pode ser uma medida concreta de cuidado com a saúde cerebral, ao lado do sono, da atividade física e do manejo do estresse.
Fonte: estudo publicado na revista Alzheimer’s & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring (2026), conduzido por pesquisadores da Monash University, Deakin University e Universidade de São Paulo (USP). Classificação NOVA desenvolvida por Carlos Monteiro (USP).
